
Minha versão de Diomedes, anti-herói de Mutarelli.
Outro dia estava lembrando do começo desse milênio, uma época em que ainda queria ser jornalista. Num dos primeiros e últimos esforços ofereci uma matéria ao Correio Braziliense e por conta disso entrevistei Lourenço Mutarelli. Na época ela lançava o Dobro de Cinco. Lembro que foi bastante difícil fazer a matéria por telefone. Ali começava a ficar claro pra mim que não nasci pra incomodar estranhos com perguntas idiotas. Mas a entrevista acabou virando um diálogo agradável que foi além da pauta da matéria. E ele ficou bastante grato ao ver que na matéria publicada eu não o tratava como o louco atormentado que a imprensa insistia em pintá-lo. Mas tudo o que eu havia feito fora dar ao leitor uma simples pista: personagens e autor podem ser entidades diferentes.
Depois dessa conversa lhe enviei um fanzine. Descobri um ano depois que um certo rato que saía numa das páginas desse fanzine contracenava com Diomedes na sequência do livro: A soma de tudo. Eu já havia abandonado o jornalismo para viver em Barcelona com a certeza de que o mais próximo que iria chegar da profissão seria lendo os livros de Joe Sacco. (Me enganei, porque logo fui trabalhar num jornal como diagramador...) Mas aquela conversa já tinha sido um ponto de inflexão para mim. Ver meu nome na sessão de agradecimentos me deu uma certeza, eu estava no caminho certo. Era aquilo que eu queria fazer. (Ok, continuo querendo...)
Depois disso não voltamos a ter contato e ele terminou a trilogia de quatro livros, ganhou prêmios, teve o quadrinho publicado aqui na Espanha, publicou uma novela, sua novela virou um filme, publicou mais livros, virou escritor, abandonou os quadrinhos, se fez dramaturgo e por último arriscou-se no papel de ator.
É obvio que os quadrinhos foram ficando em segundo plano. O que é triste se temos em conta que ele é o autor brasileiro com mais álbuns publicados, que não faz humor nem publica tirinha na Folha de São Paulo. Lembro da angústia que ele sofria ao tentar viver dos quadrinhos. Hoje descobri essa entrevista onde ele explica o motivo pelo qual nos deixou órfãos, ao mesmo tempo que anuncia contraditoriamente que está trabalhando num
novo quadrinho. E pelo jeito está contente.
E merece estar. A volta dele aos quadrinhos com certeza se dá em melhores condições econômicas do que Dobro de Cinco que ele desenhou "como se fosse um hobby" por sugestão da editora. Isso quer dizer que o reconhecimento que ele só encontrou fora do mundo dos quadrinhos está servindo para melhorar o mercado que sempre o marginou. Mas ainda que só ele note estes benefícios, já fico feliz. E eu que não recebi um centavo pela matéria que fiz sobre ele (como todas que publiquei) tive uma recompensa muito maior do que um salário: ganhei uma profissão e um caminho a seguir.
Obrigado, Mutarelli.
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